Tolerância e Intolerância

 Será que nós, povo do candomblé, entendemos  o conceito básico e temos o discernimento  sobre as duas faces da Tolerância e Intolerância ? Podemos refletir melhor lendo e observando as entre linhas, comparar com o nosso comportamento perante as questões mais simples dentro de uma casa de Candomblé. O texto abaixo nos coloca para pensar e repensar.
Tolerância significa ter a capacidade de aceitar as exigências de algo diferente em nossas crenças e opiniões, justamente ao contrario de Intolerância. Tolerância e Intolerância são termos antônimos, oposto um ao outro.


As duas faces de uma mesma moeda: tolerância e intolerância
Por: Ivone Gebara

Espontaneamente cada um de nós sabe o que é ser tolerante ou intolerante. Usamos esta palavra quer como verbo, substantivo ou adjetivo em diferentes situações de nosso dia a dia. Porém, poucas vezes paramos para refletir sobre ela e, sobretudo refletir sobre nossa capacidade pessoal de produzirmos comportamentos intolerantes. As palavras são expressões de nossa própria realidade humana, de suas contradições e de sua beleza.
A origem da palavra tolerância vem do latim – tolerare – que significa acolher alguém, ser suporte, ser indulgente para com os outros. Mas, este significado aparentemente positivo não se manteve tal e qual. Percorreu uma longa história marcada por diferentes situações históricas e culturais que foram introduzindo nuances e conteúdos diferentes ao conteúdo inicial. Por exemplo, no século XIII, Tomás de Aquino identificou a palavra tolerância com a virtude da paciência, visto que, dada a nossa imperfeição comum, temos que nos esforçar em ser tolerantes ou pacientes uns com os outros. Nos séculos XVI e XVII, com a Reforma Protestante começou-se a falar de tolerância religiosa como atitude necessária para a convivência entre católicos e protestantes. No século XIX, na França e depois em outros países do mundo, se falava das “casas de tolerância”, que eram casas de prostituição em que comportamentos sexuais que fugiam aos comportamentos admitidos pela sociedade eram tolerados.As palavras tolerância e intolerância são igualmente usadas na medicina para indicar a aptidão que um organismo tem para tolerar ou não um medicamento ou um alimento. A química pode ser tolerável ou intolerável podendo levar o paciente a morte ou a cura de seus males.
Poderíamos continuar buscando os diferentes significados, usos e costumes em torno das palavras tolerância e intolerância. Entretanto, depois desta breve introdução mostrando a multiplicidade de seus significados, julgo importante tentar trazê-las para nossa vida pessoal para entender alguns dos mecanismos que nós mesmos criamos em relação às outras pessoas ou a certas situações. Tolerantes e intolerantes não são apenas os outros que julgamos assim, mas somos nós mesmos. A tolerância e a intolerância são relações que se estabelecem entre pessoas na linha de uma reciprocidade negativa. E não são apenas frutos do momento, mas são construídas ao largo de nossa história cultural. Por isso se pode fazer a história da intolerância religiosa ou a história da intolerância étnica e assim por diante.

Sabemos bem que no cotidiano de nossa vida a palavra tolerância e sua contrária, a intolerância, são palavras acompanhadas de uma carga emocional muitas vezes negativa. É como se ao afirmarmos a palavra tolerância já sentíssemos uma emoção negativa invadindo nosso próprio corpo. É como se um peso ou uma carga se impusesse a nós e modificasse até o nosso equilíbrio psíquico e o nosso humor. E, nessa dinâmica, pode ocorrer que busquemos aliados às nossas emoções e que passemos a ter emoções coletivas em relação a este ou aquele grupo de pessoas. Somos capazes de abandonar qualquer reflexão ou qualquer racionalidade e cometer crimes de intolerância. Tudo se passa como se a irritação provocada pelo outro ou pelos outros fosse capaz de excitar em nós zonas de violência de certa forma desconhecidas, a ponto de fugirmos ao controle do bom senso e ao respeito devido a uma vida em sociedade. Já não é mais a humanidade solidária que vive em nós, mas a violência irracional capaz de tirar a vida daqueles que se tornaram de certa forma objetos de nossa intolerância. Já não reconhecemos o próximo como nosso semelhante e passamos a odiá-lo a partir das diferenças que apontamos nele. Os jornais e os noticiários abundam em fatos ou em delitos de intolerância dos mais diferentes tipos.

Para tentar apaziguar a irrupção das diversas formas de violência em nós tentamos falar da necessidade da tolerância. A partir dessa situação seu sentido toma uma forma particular em nós. Assim, tolerar alguém ou um grupo requer um esforço emocional para além do habitual. Tolerar significa aqui ter que agüentar o outro diferente, o outro com suas crenças, sua linguagem, seus costumes, seu tom de voz, sua sexualidade, suas exigências que no fundo me ameaçam ou agridem. Tolero para não eliminar o outro, para não riscá-lo de minha existência. Tolero porque acredito que é necessária certa civilidade para a convivência humana e porque nossa fragilidade e limitação comum assim o exigem. Mas, espontaneamente o que vem à tona é a vontade de eliminar o outro ou ao menos de calar-lhe a voz ou submetê-lo à minha vontade ou ameaçá-lo com uma punição que julgo merecida ou simplesmente busco sair do círculo da convivência comum. Não tenho nenhuma atitude positiva em relação a ele. Não quero conhecê-lo, nem saber de sua história, nem de seus sofrimentos e nem de seus sonhos e buscas.

Tolero para não eliminar os outros ou o outro que me molesta por sua maneira de existir ou simplesmente por sua existência em minha circunstância. Tolero porque o outro se apresenta talvez como aquele que eu não gostaria que estivesse em minha história e tenho que conviver com ele apesar dos pesares. Tolero porque intuo às vezes que o outro do qual me afasto é em parte minha sombra, meu rosto oculto, a expressão negada de meu próprio eu. A tolerância nesse sentido já nutre as raízes da intolerância.

No processo de intolerância/tolerância o centro é sempre o eu individual e coletivo ou aquilo que julgamos talvez impropriamente como sendo o nosso eu. É o eu que tolera um outro eu ou o eu que é intolerante com outro eu e com tudo o que ele significa. Há uma relação íntima entre pessoas que se toleram e pessoas que são toleradas. No fundo um é o outro. Desta forma, a intolerância não é apenas um processo que se passa no interior da subjetividade humana, mas se manifesta em comportamentos públicos pessoais e grupais de uns para com os outros. Há uma irracionalidade, uma razão sem razão em todos os processos de tolerância e intolerância.

Uma frase do Evangelho de Jesus me vem à memória: “Por que vês a palha no olho de teu irmão e não vês a trave em teu próprio olho?” (Mateus 7,3) Ou, em outros termos, por que somos capazes de apontar o limite do outro e de certa forma desculpar-nos de nosso próprio limite? Por que mantemos hierarquias de diferentes tipos entre nós e os outros?

Criamos um mar de discórdias entre nós e pouco a pouco vamos desacreditando de nossas possibilidades de respeito e solidariedade. Instauramos o inferno das guerras étnicas, das guerras entre os sexos, das guerras religiosas!

Para muitos de nós a descrença na capacidade humana de desenvolver relações de justiça e igualdade está se tornando moeda corrente. “O homem lobo para o homem” tem se tornado uma conduta comum de vida. Fechamo-nos, defendemo-nos e nos atacamos mutuamente num acirramento de identidades étnicas, sexuais, religiosas cada uma tentando afirmar algo de nós, mas nenhuma suficiente para dar razão à nossa desumanidade.

A tolerância e a intolerância são na realidade duas faces da mesma moeda. Mas, qual é a moeda?  É a moeda da mentira, a moeda falsa, enferrujada por dentro e pintada de ouro por fora. É a moeda enganosa que cria ilusões sobre o poder humano e sua capacidade de dominar a terra e seus habitantes. É a moeda que se tornou mediação das relações humanas cada vez mais sem alma, isto é, sem a honestidade da verdade da interdependência que nos permite existir. Moeda que nada mais é do que uma ilusão passageira, ilusão altamente destrutiva de todas as vidas.

A partir de nossos sonhos queremos restaurar a moeda das trocas diretas, a moeda capaz de ser farinha e pão, água e vinho, cuidado com a terra e todos os seus habitantes. A moeda da ecologia da terra e da ecologia humana capaz de apostar na força de nossa diversidade e no respeito a ela como único caminho para manter a vida viva.
As palavras tolerância e intolerância poderiam ter assim gradativamente seu significado original restaurado. Poderiam ser convite cotidiano para que sejamos apoio para os outros, paciência e perdão. E quando o vírus da intolerância se  manifestar de novo, sermos capazes de lembrar que palhas e traves existem em todos os olhos, mas que além delas existe a beleza do olhar ou existe simplesmente a misteriosa e frágil chama da vida em cada um de nós.

Ivone Gebara
Para Tempo e Presença – Outubro de 2008.

Àsèsè -O Rito

Resultado de imagem para foto de axexe

*Axêxê é a cerimônia que louva os ancestrais de todos os tempos e nações. Esta cerimônia começa pelo Ìpadé fúnebre, ligeiramente diferenciado dos demais e poderá durar de 1 a sete dias

Através do rito do Axêxê se tem todo um sentido de manifestação do Povo do Santo, rodando, dançando, se integrando com o cosmos, mostrando que temos consciência de que somos elementos dinâmicos, de que o movimento da roda no sentido anti-horário nos liga aos antepassados, proporcionando paz, alegria, saúde e longevidade, dando-nos a certeza que nossa passagem na terra é finita, mas que nossa vida espiritual é infinita – donde os Homens e mulheres são os elementos que dançam em círculo – representa o altar da criação, da vida, já que a terra está em movimento, o universo está em movimento e só se conseguirá estar em sintonia com o universo através do movimento e assim sendo, proporcionando o bem estar da comunidade. Em todos os ritos e principalmente no do Axêxê, os laços de sangue são substituídos pelos de participação na comunidade, de acordo com a antiguidade, as obrigações e a linhagem iniciática. Todos estão unidos por laços de iniciação às divindades cultuadas, aos demais iniciados, às autoridades, aos antepassados e aos ancestrais da comunidade. As oferendas, principalmente a de sacrifícios vegetais, animais e minerais, representam o não uso da violência para resolver questões. Há um princípio de completude do outro, de que a vida se constrói de mãos dadas e de que cada um de nós à medida em que estabelece esta relação, estabelece um elo mais completo com as coisas que estão à volta.


Cada ser é perfeito dentro de sua própria verdade. A solidão é fruto da individualidade inflexível que está dentro de nós em aceitar o próximo como ele é. Muitas vezes ficamos fechado com nossa solidão interior e atribuímos essa culpa ao outro. Solidão é opção! A forma de reverter essa solidão é refletir sobre esse assunto e buscar dentro de si mesmo o que deve ser transformado e começar a agir. Respeitar o outro é fundamental, mesmo que não concordemos com suas idéias.

Babá Lokanfu.Toluaye.

*Babá Fernando D’Osogiyan

A força das mães negras

Resultado de imagem para fotos de mãe negra

Levando-se contra a escravidão, o machismo e o preconceito, a negra brasileira encontrou em sua espiritualidade ancestral os mitos, os símbolos e os exemplos que lhe inspiraram insubordinação e lhe permitiram construir uma nova e altiva identidade

por Sueli Carneiro
A luta das mulheres adquiriu diferentes perfis em nossa história, pois diferentes também eram as inserções sociais e as origens étnicas de suas protagonistas. Em comum, traziam o desejo de liberdade. Para as mulheres brancas, foi a luta contra o domínio patriarcal. Para as negras, a luta contra o jugo colonial, a escravidão e o racismo. Dentre as formas de resistências engendradas pelas mulheres negras brasileiras, destaca-se o exemplo das Yalorixás: uma estirpe de notáveis lideranças espirituais, como Yya Nassô (século XIX), Tia Ciata (1854-1924), Mãe Aninha (1869-1938), Mãe Senhora (1900-1967) e Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), entre outras.Essas mulheres traziam para o presente modelos sacralizados de sua ancestralidade, evidenciados na mitologia preservada e na estrutura religiosa que aqui recriaram. A mitologia africana, apontando insistentemente as estratégias mais diversas de insubordinação, simbólicas ou reais, lhes ofereceu a possibilidade de criar mecanismos de defesa para a sobrevivência e a conservação de seus traços culturais de origem.

O universo mítico, do qual o candomblé é remanescente, se estrutura, como várias outras mitologias, no princípio da sexualidade. É da interação dinâmica entre pares de contrários que tudo é gerado. Assim, a Terra (aiyé) e o Céu (órun) expressam, respectivamente, os princípios arquetípicos Feminino e Masculino. Sua união, que é a garantia da continuidade de tudo, nem sempre se dá de forma harmoniosa. E os conflitos, que são relatados nos mitos, expressam muitas vezes a luta entre os poderes feminino e masculino, em disputa pelo controle do mundo. Essa disputa expressa também o fato de que, em algumas sociedades africanas, mulheres e homens pertenciam a associações demarcadas pelo gênero: Geledé e Ialodé para as mulheres e Oró para os homens.

Segundo a antropóloga Terezinha Bernardo: “Ialodê era uma associação feminina cujo nome significa ‘senhora encarregada dos negócios públicos’. Sua dirigente tivera lugar no conselho supremo dos chefes urbanos e era considerada uma alta funcionária do Estado, responsável pelas questões femininas, representando, especialmente, os interesses das comerciantes. Enquanto a Ialodê se encarregava da troca de bens materiais, a sociedade Gueledé era uma associação mais próxima da troca de bens simbólicos. Sua visibilidade advinha dos rituais de propiciação à fecundidade, à fertilidade — aspectos importantes do poder especificamente feminino”. No Brasil, o culto Geledé desapareceu e Ialodé tornou-se título de mulheres importantes do candomblé.

A organização social do candomblé procurará recriar as estruturas hierárquicas das sociedades africanas que a escravidão destruiu, reorganizar a família negra, perpetuar a memória cultural e garantir a sobrevivência do grupo. Ela permitiu que os “terreiros” se tornassem territórios de organização comunitária, de cura aos destituídos do direito à saúde, de resistência cultural e de negociação com a sociedade abrangente e excludente. Leni Silverstein afirma, a propósito do caso baiano, que “a família-de-santo, com mulheres em seus pontos focais, se torna crucial para a perpetuação de um sistema alternativo de valores, costumes e culturas”1.

Esse passado de resistência marca profundamente o povo-de-santo, em especial suas mulheres. Matriarcas negras que foram reverenciadas no livro A cidade das mulheres (1932), da antropóloga e pesquisadora norte-americana Ruth Landes. Diz ela que a mulher negra “era, no Brasil, uma influência modernizadora e enobrecedora”. E explica: “Economicamente, tanto na África como durante a escravidão no Brasil, contara consigo mesma. E isso se combinava com a sua eminência no candomblé para dar um tom matriarcal à vida familiar entre os pobres. Era um desejável equilíbrio para o rude domínio dos homens em toda a vida latina”2.

Ruth observou que as mulheres do candomblé jamais se prostituíam, mesmo quando pobres, que eram livres no amor, mas não o comercializavam, que eram seres humanos bem desenvolvidos na época em que o feminismo levantava a voz pela primeira vez no Brasil. Suas vidas compõem parcela significativa da história do oprimido deste país e vêm sendo fonte de inspiração para a luta das mulheres negras contemporâneas. A pesquisadora e feminista negra Jurema Werneck compreende suas estratégias como “formas contra-hegemônicas de produção cultural”. E as vê construindo identidades com base em recortes territoriais, lingüísticos ou afetivos.

Pela apropriação e atualização desse patrimônio cultural, as mulheres negras vêm conformando organizações inspiradas na mitologia africana e nas histórias de suas antepassadas. Nesse processo de afirmação identitária, buscam, em instituições femininas da tradição religiosa, nas figuras míticas e nas ancestrais coletivas, os valores e modelos de insubordinação para confrontar a ordem patriarcal e racista.

Tal processo tem sido objeto da investigação científica de pesquisadoras negras contemporâneas, que buscam iluminar as linhas de continuidade entre a tradição e as estratégias de luta atuais. É o caso, por exemplo, do estudo realizado por Angélica Basti, que demonstra que o processo de rememoração implica em dois movimentos simultâneos: a lembrança do passado e a produção de um novo sentido no presente. E faz do mito “uma poderosa ferramenta para a re-significação da memória coletiva”.

Para a pesquisadora, as organizações femininas negras são as novas guardiãs da produção discursiva do grupo. Pois resgatam, registram, arquivam e difundem a história das mulheres negras. E lutam por essa re-significação como instrumento para a transformação do presente.

Do interior dos mitos, emergem os símbolos que inspiraram e inspiram o protagonismo religioso e político de parcelas da população feminina negra brasileira e demarcam as especificidades de sua perspectiva. Assim, Oxun, Iansã, Obá, Ewá, Iemanjá, Nanã conformam arquétipos que alargam e complexificam nossa compreensão do feminino. Cada orixá personifica uma linha de força da natureza, um papel na divisão sexual e social do trabalho, um conjunto de características temperamentais e emocionais. A existência de orixás femininos, masculinos e andróginos expressa uma compreensão profunda da própria sexualidade humana. Os indivíduos concretos serão percebidos do ponto de vista de seus caracteres psíquicos básicos, de sua ação concreta sobre o real e das múltiplas possibilidades de combinações desses componentes.

Esse sistema de representações, particularmente suas mulheres míticas, oferece vivências que a sociedade machista nega. O conservadorismo cristão, que moldou a moral brasileira passada, impôs às mulheres a escolha entre os estereótipos da Virgem Maria e de Maria Madalena. Do ponto de vista patriarcal, esta última só encontra redenção ao abdicar de sua sexualidade. As deusas africanas legitimaram a transgressão dessa dicotomia maniqueísta. As deusas africanas são mães dedicadas e amantes apaixonadas.

A partir do exemplo de Mãe Menininha de Gantois, Ruth Lande nos mostra o tipo de comportamento que essa visão alternativa de mundo ensejou: “Menininha não se casou legalmente […] pelas mesmas razões que as outras mães e sacerdotisas não se casam. Teria perdido muito. De acordo com as leis daquele país católico e latino, a esposa deve submeter-se inteiramente à autoridade do marido. Quão incompatível é isso com as crenças e a organização do candomblé! Quão inconcebível para a dominadora autoridade feminina! E tão poderosa é a tendência matriarcal, em que as mulheres se submetem apenas aos deuses, que os homens […] nada podem fazer além de enfurecer-se, censurar e brigar com as sacerdotisas que amam”3.

Inspiradas nos exemplos dessas precursoras poderosas, as mulheres negras, mestiças e brancas exibem hoje suas saias coloridas e vestem ojás e batas brancas engomadas durante as festas. Trabalham, cantam e dançam noite adentro para seus orixás. Entendem que, apesar de Oxalá ser o grande genitor masculino, ele se curva em adobale (prostração reverencial) diante de Oxum, o poder genitor feminino.

Sabem que, embora Oxalá só possa usar a cor branca, ele põe nos cabelos a pena vermelha, o ekodide, em homenagem ao sangue menstrual, símbolo da fertilidade e da concepção. Então, percebem que a dominação masculina não se explica pela natureza inferior da mulher, mas pelo reconhecimento de suas potencialidades e pelo temor que isso inspira. Enfim, descobrem que a Virgem Maria e Maria Madalena são forças vivas em seu interior e que não precisam abdicar da sexualidade para atingir o reino dos céus.

Sueli Carneiro é doutora em Filosofia da Educação pela USP, escritora e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Este artigo nasceu da pesquisa realizada por ela na década de 1980, sob o título “O poder feminino no culto aos orixás”.

Postado no blog: ocandomble.wordpress.com por Dayane Silva (Oya Kole)

1 Leni Silverstein, “Mãe de Todo Mundo: modos de sobrevivência nas comunidades de candomblé da Bahia”, em Religião e Sociedade, número 4.
2 Ruth Landes, A cidade das mulheres, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2002.
3 Idem.
4 Terezinha Bernardo, “O poder feminino no candomblé”, em Revista de Estudos da Religião, no 2, 2005.

Fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=79

Ofó – O poder da palavra

O Ofó é uma palavra de origem yorubá (ofò), que designa o encantamento através da palavra, que pode ser expressa por versos ou cantigas. Esse é um dom que já nasce conosco, porém é maximizado na iniciação, por uma série de atos realizados em segredo e conforme o seu comprometimento e respeito pelo Orixá, esse poder aumenta.

Use o Ofó para desejar graças ao próximo, para pedir saúde e interceder na hora de um grande perigo, não jogue esse dom divino ao vento por besteiras ou pedrinhas do dia a dia. O axé é algo precioso e deve ser usado com prudência, ou então de tanto invocar o espiritual para resolver besteiras, vai chegar uma hora que estará desacreditado e sua palavra não terá valor nem para os homens, nem para os deuses.

Ofós também são as rezas para Òsányìn com a intenção de despertar o àse contido nas folhas e esse ritual pode ser cantado em vários momentos do culto à òrìsà. Esse ritual tem sequencia, e cada folha tem seu Ofó cantado e relacionado aos òrìsàs correspondentes. Pode-se observar, às vezes, que nem todas as espécies de folhas cantadas se encontram presentes no momento do ritual. Porém, o fato de louvá-las faz com que as suas substitutas exerçam o mesmo papel.O uso mágico das folhas na religião yorubá sempre vem acompanhado de expressões de encantamentos que visam despertar o àse das folhas utilizadas. Palavra falada que se acredita possuidora de força mágica ou capaz de produzir efeitos mágicos, Estes encantamentos são chamados ofó.

Ofó é um aspecto oral de magia Africana, que requer proferindo palavras, uma falha menor em reditar pode renderizar um ófò ineficaz. Ofó são usados em esfera, quase cada de atividade boa, uma para a proteção contra forças do mal ou, a fim de alcançar o sucesso. Baseado em critérios funcionais

OFÓ  –  Forca da palavra:

Oríkì (do yorùbá, orí = cabeça, kì = saudar) são versos, frases ou poemas que são formados para saudar o orixá. Se um oríkìnão conseguiu alcançar o efeito desejado, às vezes é necessário elevar o nível de Àse chamando o Òrìsà por um nome de louvor. Os nomes de Elogios são chamados asé ofó em yorùbá, que significa “palavras de poder”.

Pesquisa: Babá Diego D’Odé e Axé Odára.

O verdadeiro zelador (a) tem que ter Ofó, tem que mastigar ataré e obí, tem que ter o dom da invocação do bem para o bem, nunca para o mal, tem que chamar na alma o bom ebó, tem que ter o hálito divino do saber e aplicar, a intuição à base do seu legado, seus ancestres e suas divindades.

Bàbá Fernando D’Osogiyan

Itan de Òrúnmìlá

orunmila1

Òrúnmìlá, como todos sabem veio a este mundo em forma de homem (quem sabe?), pelejou pelas terras africanas em missão dada por Olódùmarè.

Em sua vida, teve esposa e filhos e sentia-se velho, não tinha fartura, trabalho, enfim, vivia desgostoso. Olórun ouvindo as suplicas de Òrúnmìlá, deu sinais para ele procurar um Babalawo, que ao consultar Ifá, lhe indicou um ebó.

O ebó consistia em 5 cabaças abertas e sacrifício de um galo.

Cada dia uma cabaça e um galo, completando 5 dias.

Ao depositar a oferenda nas encruzilhadas, uma entidade se apossava e se alimentava da oferenda. A cada dia fortificava seu corpo espiritual até que no quinto dia, tornou-se um ser humano. As 5 cabaças fecharam e ele as carregava com ele, pois era um enviado de Olórun para cumprir a missão de oferecer-lhe as 5 cabaças citadas, Paciência, Longevidade, Fertilidade, Riqueza e Sabedoria.

No quinto dia, este homem seguiu Òrúnmìlá até sua casa. Batendo à porta, ofereceu-lhe as cabaças pedindo para que escolhesse apenas uma.

Òrúnmìlá em dúvida chamou a esposa que lhe aconselhara escolher a Fertilidade, assim poderia ter vários filhos, além dos 3 que já tinha. Não contente, chamou os filhos, que aconselharam escolher a Longevidade, assim poderia conhecer os filhos dos seus netos. Não feliz, chamou os irmãos, que lhe deram o conselho de escolher a Riqueza, assim ficaria rico e não passaria mais necessidades. Òrúnmìlá mesmo escolheria a cabaça da Sabedoria, mas mesmo assim ficou na dúvida e chamou seu melhor amigo, Èsù.

Èsù quis saber o que sua família havia escolhido e disse que a única cabaça que ninguém se interessou seria a mais importante. Então Òrúnmìlá obedeceu aos conselhos de seu amigo Èsù e disse que quem escolhesse a Cabaça da Paciência, com o tempo teria as demais cabaças juntas.

Òrúnmìlá então ficou com a Paciência.

O homem cumpriu sua tarefa e voltou para rua indo em direção ao Céu. A cada passo seu corpo físico desfazia e no caminho ao Céu uma cabaça acordou.

A primeira que acordou foi a Sabedoria.

Onde está a Paciência?

Perguntou.

Ficou na casa de Òrúnmìlá, disse ele.

Sem ela eu não volto pro Òrun.

De repente a Cabaça da Sabedoria sumiu das suas mãos.

Mais adiante, a Fertilidade acordou fazendo a mesma pergunta.

Até que todas iam acordando e sumindo, indo em direção à casa de Òrúnmìlá.

Quando chegou à porta do Òrun, a entidade estava chorando de medo, pois tinha que trazer as Cabaças de volta.

Ao entrar no Palácio de Olódùmarè, todos o esperavam, até Olódùmarè pedir para que entrasse e disse:

“Você cumpriu sua missão?”.

Sim senhor, mas todas as Cabaças sumiram das minhas mãos e voltaram para a Casa de Òrúnmìlá.

Disse Olódùmarè acalmando-o:

Sim, quem escolher a Cabaça da Paciência, terá juntado dela toda a riqueza do mundo, vida longa, fertilidade e sabedoria. Não se preocupe que sua missão foi cumprida. Agora Òrúnmìlá continuará vigiando e pondo ordem na Terra.

Esta é uma itan da qual podemos passar aos desesperados, pois com fé, com certeza Olódùmarè olhará por nós, dando-nos tudo que precisamos se tivermos conosco não a Cabaça em si, mas a paciência que morava dentro dela.

Só para enfatizar – As amigas inseparáveis.

A Paciência é a única sobrevivente e companheira da Esperança.

É necessário quase que casamento entre as duas.

Até que a morte as separe.

Lembre-se que a Dona Esperança tem vida longa.

Paciência não.

Como nós mesmos dizemos:

“A Esperança é a última que morre”.

A Paciência não.

Espero que vocês tenham a Dona Paciência como amiga e aliada, pois sem ela, muitas coisas ficarão perdidas na vida e se a dona Paciência morrer antes corremos o risco de a Esperança ir junto.

Evite que isso aconteça com você.

Pesquisa: Odé Ợlaigbo