Eyin – A importância do Ovo.

 

O ovo (eyin) é o principal e maior símbolo da fertilidade, utilizado amplamente nos rituais de purificação, iniciação, borís e ebós de propiciação e defesa.  O Ovo possui três diferente cores associado as cores principais e primordiais do universo; o ovo de casca azul representando a cor preta relacionada ao “Aba” = a escuridão as trevas das profundezas da terra e mares, o ovo de casca branca relacionada ao Iwà = a explosão da luz, e finalmente o ovo de casca vermelha relacionada ao Àse. = fogo mantenedor da fertilidade totalmente relacionado ao poder sobrenatural. Seu conteúdo possui diversas características, o qual na maioria das vezes é branco, frágil e oval. Dele nasceu um novo ser, associado a ideia de que o universo surgiu primordialmente dele próprio, na forma de um protótipo do mundo. Como um filho de asas negras ÌYÀMI-ÒSÒRÓNGÀ que foi cortejada pelo vento ÒRÌSÀNLÀ-ÒBÁTÁLÀ. O ovo é uma célula reprodutora feminina dos animais chamada macrogameta, ou seja, rudimento de um novo ser organizado, primeiro produto do encontro dos dois sexos, pelos quais desenvolve a possibilidade de existência do fato. Germe, origem, princípio. Uma imagem viva do grande mundo (O Universo), em oposição ao microcosmo (o homem). O Ovo é resultante da composição e fecundação de óvulos, possuindo 4 partes; a 1º parte é a casca que representa o útero (invólucro mítico), a 2º parte é membrana interna que representa a bolsa, placenta uterina (parede defensora), a 3º parte é a clara, matéria viscosa e esbranquiçada, do grupo das proteínas que representa o útero, a 4º parte é a gema amarela, parte intima, central e globular suscetível de reproduzir, a qual representa o feto, um novo ser engendrado preparado para nascer e autuar no que for necessário.

O mito do ovo está presente em todas as culturas antigas, entre elas a Yoruba, Polonesa, Fenícia, Chinesa, Eslava, Polinésia, Finlandesa, Hindu, Germânica, Hebraica entre outras. A força germinal contida no ovo, está associada à energia vital com grande desenvolvimento através de Èsú, motivo pelo qual, tanto o ovo como , desempenha uma função importantíssima no culto Yoruba, principalmente no culto de ÌYAMI ÒSÒRÓNGÀ, ÒSÚN, IYEWÁ, OYÀ, ÒMÒLÚ, etc…
Confirmando um total culto à fertilidade, magias curativas, purificando e quebrando as forças maléficas. A gema, sangue germinal unida à clara para obter nutrientes e hidratação necessária, transformados num único ser vivo individual no interior do ovo, plagiando o mesmo processo no interior do útero, que indiscutivelmente é o mesmo processo que acontece nos rituais, numa mesma ideia de união do casal universal; Òrìsànlà-Òbátálà e Iyémowo. Só o que no contexto do ovo, acontece mais rapidamente não existindo nenhum tipo de vínculo biológico entre a mãe e o filho, ou seja, não existe cordão umbilical. Isto explica o poder contido no ovo por si só, o qual foi um elemento criado diretamente pelo todo poderoso Òlódúnmàré (Deus), que colocou primeiramente o Ovo no mundo, logo depois surgindo dele a vida, ou seja, a ave. Por isso, o ovo é um elemento originado do criador, o símbolo mais importante representante do poder de ÌYÀMI ÒSÒRÓNGÀ a mãe universal que necessita intrinsecamente do poder masculino de ÒRÌSÀNLÀ-ÒBÁTÁLÀ, o qual faz o ovo um elemento de muito Àse (poder realizador).     O ovo é utilizado amplamente nos rituais sob várias formas depois de encantados por palavras mágicas; na finalidade de neutralizar o mal, purificar a cabeça de um Ìyawó antecedendo a iniciação, purificar a cabeça das que habitualmente irá receber sacrifícios no Orí, antecedendo o borí, purificar o caminho de pessoas que tem obstáculos na vida, tirar problemas de confusão, purificar uma pessoa com maus espíritos, tirar doença de mulheres e bebês, tirar a Ikú do caminho de alguém. O ovo e também utilizado nos rituais de propiciação; na finalidade de obter fertilidade, atrair dinheiro, produtividade nos negócios e apaziguamento de certa situação quando utilizado em ebós.

O ovo quando cozido não possuindo mais então é utilizado inteiro sobre as oferendas das divindades, tendo somente a função de neutralizar doenças negativas. Já quando cozido e esfarinhado misturado ao Ekurú também esfarinhado, este tipo de comida é utilizada para espalhar sobre o solo da casa de Òrìsá, na finalidade de agradar os Ayes (espíritos que residem na terra) espantando o mal ou neutralizando as energias negativas, quando é invocado neste ritual; os Ayes sob o domínio de Ìyami Òsòróngà, Èsú e Òbálúàiyé, assim propiciando abundancia e prosperidade para casa. O ovo cru com seu frescor, quando utilizado inteiro em oferenda tem a função tranquilizar e refrescar. Por isso, é comum vermos muitos ovos crus depositados no chão aos pés de certos Ajùbò (assentamentos dos Òrìsas) na finalidade de atrair abundancia e proteção, fazendo todas as divindades compreenderem perfeitamente que o ebò é uma súplica de fertilidade, germinação de filhos, dependendo da atuação da Divindade, ela não só atuará no tocante a fertilidade no útero, mais também propiciaria dinheiro, sorte, saúde e desenvolvimento na vida, por ser ovo um agente naturalmente fértil. Já os ovos crus, quando “quebrando” diretamente passando na cabeça, têm a função poderosa de purificar e livrar qualquer tipo de feitiço ou qualquer outro tipo de negatividade que esteja sobre o Orí de uma pessoa. Quando num èbò ovos crus são atirados no chão ou quebrados encima do corpo de uma pessoa num sacrifício de purificação vulgarmente chamados de descarrego, é na finalidade de desobstruir os caminhos tirando as dificuldades da vida ou qualquer espírito de força contrária que esteja acoplado no corpo (obsessores). Ao ser quebrado ele revela sua riqueza e seu poder tanto sobrenatural como concreto, pois no exato momento que é quebrado, o ovo não terá mais a possibilidade de germinar, ou seja, nascer algo dele, assim num tipo de substituição ou troca matará o problema que aflige uma pessoa possibilitando o fim de algo ou de uma situação negativa. Por este motivo que o ovo cru deve ser quebrado principalmente no Òrí de uma pessoa, numa preparação e limpeza da  cabeça começando pelo 1º sangue negro o Agbo-tutu (sumo de ervas fresca) em seguida o sangue vermelho de aves ou quadrúpedes e finalmente o sangue branco do igbin (caracol) que é espremido por cima de tudo, assim purificando, possibilitando a existência da força sobrenatural, acalmando e fertilizando a cabeça que está no momento recebendo o puro àse , com a união dos três sangues primordiais após ter sido purificada com o ovo cru, possibilitando a pessoa obter sorte, dinheiro, felicidade, fertilidade, saúde e tranquilidade. Quando um ovo é quebrado em qualquer ritual, o nome Ìyami Òsòróngà é em alguns casos, respeitosamente citada e reverenciada, porque qualquer que seja o ovo lhe pertence, como relata vários Itans de Ifá. Quebrar um ovo na rua (atirando no chão) pela manhã por três ou sete dias consecutivos, chamando Èlegbara e Ìyami Òsòróngà e aspergindo dendê por cima do ovo cru, este, é um simples e poderoso ritual do culto de Ìyami Òsòróngà, o qual tem a finalidade de afastar qualquer tipo de dificuldade ou prejuízo acalmando qualquer energia avessa do caminho de uma pessoa e somente os zeladores tem o poder desses rituais. É comum nas Casas de ketu encontrarmos na porta de entrada do terreiro, alguidares ou louças com água e um determinado números de ovos muitas vezes cobertos com dendê para afastar os ajogun.

Como relata ifá, o ”Ovo de pato” é o símbolo da vida e umas das proibições de Ikú (morte), a utilização do ovo de pata cru, é essencial principalmente em certos rituais seus, com finalidade de quebrar a força da morte, doença e perdas, assim uma pessoa sairá vitoriosa obtendo longevidade, saúde e ganhos. Quando cozido e esfarinhado é utilizado como agente purificador passando pelo corpo de uma pessoa em ebós de Egungun ou Onilé (para dentro da terra), também como casca e tudo é transformado a pó (seco ao sol) utilizado no igbà-Orì e assentamentos dos Òrìsá de relação com ikú Ex: Èsú, Ògún, Òbálúàiyé, Iyewá, Òmòlú, Erinlè, Ibeji, Sàngó, Oyà, Iyémowo, Òrìsànlà, Ajagémó, Iroko, Obá, Onilé, Egungun, etc.

O único Òrìsá que não possui relação com ikú é o Òrìsá Òsún, por ela não aceitar qualquer relação com situação de morte, também não aceita que os animais em seu culto sejam sacrificados em vão, sem seu consentimento pois Òsún não aceita desobediência a sua liturgia. Òsún também não aceita que suas filhas morram facilmente, assim Òsún os protege dando longa-vida numa ação de prolongar o máximo o contato com a morte, são alguns  aspectos de Osún estão relatados nos Itans do Odu Ósé, assim também podemos entender o porquê que filhas de Òsún não podem fazer aborto em hipótese  alguma (a chimba é dura)

O ovo de pata é amplamente utilizado nos (sacrifício “Ebós–Aiku” de longevidade) tirando qualquer tipo de  morte, seja material, espiritual, financeira ou sentimental. Fica claro que o ovo utilizado na casa de Òrìsá é um elemento ligado a Ìyàmi-òsòróngà sendo um utensílio de muito Àse.

Em algumas Casas antigas é expressamente proibido (èwó) as filhas de Òsún quebrar e fritar ovos devido a sua ligação e trato com as Ìyami, daí entendermos porque Òsún ofereceu omolokun com ovos para apaziguar as Ìyamis, por isso, nas grandes obrigações, as Ìyalòrìsá de Òsún e somente elas, arrumam o ajubó encima de uma árvore para reverenciar a grande feiticeira, Ìyami Òsòròngá.

Classificação dos Ovos :
Ovo de galinha cru – purifica e tranquiliza

Ovo de galinha cozido – tirar doenças.

Ovo de galinha esfarinhado – neutralizar negatividade do ambiente, atrair prosperidade e abundância.
Ovo de pata cru – enfraquece a força da  morte, doenças graves e perdas.

Ovo de codorna – Neutraliza feitiço.

Ovo de D’angola – propicia dinheiro, sorte, prosperidade riqueza e sucesso nos negócios.

Ovo de pombo – propicia tranquilidade e fertilidade.

Texto/Pesquisa: Ìyá Suami Portinhal D’Òsún – Apetebi Irete Iká.

Texto/Colaboração: Bàbá Fernando D’Òsògìyán.

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Publicado em Artigos de Candomblé por Fernando D'Osogiyan. Marque Link Permanente.

Sobre Fernando D'Osogiyan

Ingressei no candomblé 1979, fui abiyan por 4 anos e me iniciei em 24 de julho de 1983, nação Ketú/Nàgó, no Ilé Àse Òsùmàrè Rio de Janeiro, casa do Babalorixá Nilton de Òsùmàrè. Meu Babalórisá Mauro D’Omolu então na época era o Babá Kèkèré da casa, com o qual dei todas as minhas obrigações e tomei o posto de Otún, tive a Iyalórisá Yára D’Òsún como minha mãe pequena e a Ajoiè Elza D’Sàngó como Jìbònán. Assumi definitivamente o Ilé Àse Òsòlúfón-Íwìn em 30 de novembro de 2000, roça de meu tio de santo Milton de Òsòlúfón, filho de Pai Paulo D’Oyá mais conhecido por Pai Paulo da Pavuna, somos todos descendentes do Ilé Àse Òsùmàrè Araká-BA via mãe Teodora de Yemanjá. Esse ano de 2016 completo 21 anos de muita luta, trabalho e perseverança dirigindo a casa de Òsàlá, o Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn em Guapimirim-RJ. Para maiores informações,visitas e consultas através do email: Fernando.culuchi@gmail.com. Endereço de acesso: https://ileaxeoxolufaniwin.wordpress.com

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