O mais importante não é saber a qualidade de seu Orixá, o mais importante é saber qual é o seu Orixá!

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Quando comecei frequentar como abiyan uma casa de candomblé a mais de 38 anos atrás, naquele tempo não se falava em “qualidade de Orixá” e nem sabíamos direito do que se tratava, o mais importante para os zeladores da época, era realmente procurar o caminho pelo qual o Orixá (supostamente) se apresentava no seu jogo, era comum um zelador confrontar o jogo com o de seu Babá ou de sua Ìyá ou um outro egbon, não havia vaidade que se vê hoje em dia, a preocupação era em estar seguro e amparado pelo seu axé, por isso que naquele tempo haviam muitas saídas de Iyawos semanalmente com grande festa, hoje em dia algumas casas adotaram não fazer festa para tirar Iyawo, parece que estão tirando Iyawo escondido, às segundas-feiras, pouco se vê alguém tirando nome de Iyawo, ou tiram Iyawo sem relevância dentro de festa da Casa.
Meu zelador dizia depois que me iniciei, que eu era de Oxalá moço, Oxaguian, aquele que carrega o pilão de duas bocas como referência e uma vara chamada atorí, “santo funfun” dizia ele, e me prescrevia sempre os interditos, talvez para eu nunca esquecer, tal sua preocupação comigo.(valha-me Babá mi).
Hoje em dia é assustador como as pessoas que ainda mal frequentam uma casa de candomblé já sabem até a qualidade de seu Orixá. É comum um simpatizante dizer que é de qualidade tal e come com tal Orixá, que jogou e o Pai ou Mãe de santo afirmou isso e aquilo que meu odú é forte, que nasci feito, etc, etc.
Sabemos que ao pé da letra que não existe “qualidade de Orixá”, que na verdade é a mesma energia que se divide, espalhando-se, formando vários cultos, variando de acordo com sua localização, região, cultura, dando nome a cidades, lugarejos, rios, lagos, matas, são divinizados, assim , encontraremos por toda Nigéria.
No Brasil, formou-se o panteão dos Orixás por energia regente/afinidade/culto, nasceu o termo qualidade para diferenciá-los nos seus fundamentos e até nação.
Hoje em dia, os “novos zeladores” não preservam mais a energia do Orixá em sí como fator primordial numa consulta, parece que não basta dizer para o neófito qual o Orixá que se apresenta, o Orixá que prepondera naquele momento, o Orixá que responde no jogo, Não! Eles querem ir além,( supostamente evidentemente) dar a qualidade do Orixá, como se isso fosse possível e necessário, sinceramente vira loteria, arrisca-se um palpite em nome de Ifá. Muitas consulentes saem dessas consultas com esses “novos jogadores de búzios” na certeza ilusória de que realmente saber qual é o seu Orixá  e a qualidade, podendo na grande maioria das vezes estarem completamente enganados, incorrerem num erro que pode chegar até a iniciação. Dá para imaginar tamanha irresponsabilidade?
Este neófito poderá passar a amar um suposto Orixá, estudar seu arquétipo, e ainda, seu orí irá comprar involuntariamente uma falsa verdade além de se convencer de forma categórica dessa falsa verdade. O Orí humano compra a história e muitas vezes não há como demove-lo do problema e nem convence-lo a cair ou voltar a realidade.
Esses novos zeladores pseudos jogadores de búzios, alguns até com título de Ifá Tal… aprenderam  a conversar com um Obí? Ou será que eles pensam que numa consulta através dos búzios pode-se afirmar a qualidade ou caminho de um Orixá?
O mais importante não é saber a qualidade de seu Orixá, o mais importante é saber qual é o seu Orixá!
O caminho ou a qualidade certamente virá a posteriori, na iniciação, na apresentação do seu Orixá, na vibração de sua energia  no apere.
Texto: Bàbá Fernando D’Osogiyan
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Publicado em Artigos de Candomblé por Fernando D'Osogiyan. Marque Link Permanente.

Sobre Fernando D'Osogiyan

Ingressei no candomblé 1979, fui abiyan por 4 anos e me iniciei em 24 de julho de 1983, nação Ketú/Nàgó, no Ilé Àse Òsùmàrè Rio de Janeiro, casa do Babalorixá Nilton de Òsùmàrè. Meu Babalórisá Mauro D’Omolu então na época era o Babá Kèkèré da casa, com o qual dei todas as minhas obrigações e tomei o posto de Otún, tive a Iyalórisá Yára D’Òsún como minha mãe pequena e a Ajoiè Elza D’Sàngó como Jìbònán. Assumi definitivamente o Ilé Àse Òsòlúfón-Íwìn em 30 de novembro de 2000, roça de meu tio de santo Milton de Òsòlúfón, filho de Pai Paulo D’Oyá mais conhecido por Pai Paulo da Pavuna, somos todos descendentes do Ilé Àse Òsùmàrè Araká-BA via mãe Teodora de Yemanjá. Esse ano de 2016 completo 21 anos de muita luta, trabalho e perseverança dirigindo a casa de Òsàlá, o Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn em Guapimirim-RJ. Para maiores informações,visitas e consultas através do email: Fernando.culuchi@gmail.com. Endereço de acesso: https://ileaxeoxolufaniwin.wordpress.com

2 respostas em “O mais importante não é saber a qualidade de seu Orixá, o mais importante é saber qual é o seu Orixá!

  1. Fernando, até ler seu post eu achava ser de Oxossi. Sou? Não sou? E aí, como é que eu faço? Estava bem tranquila porque ME IDENTIFICO muito com as qualidades (que você disse não terem importância), inclusive sinto a energia em mim quando vou pra mata virgem, converso com ele e ele me atende. Tô alucinando?
    Até agora não estou em nenhuma casa, terreiro, ou o que seja. Tenho um grande amigo que me orienta aqui e ali e onde tenho amparo. Ele e seu companheiro têm casa na Bahia então minha comunhão com eles é mesmo por e-mail (por sinal o nome dele é Fernando também, ele é de Xangô). Há muito tempo atrás ele disse que eu era de Oxossi. Outro pai de Santo (Pai Dari, de Salvador também) confirmou isso. Depois ele meio que voltou atrás, quis me atribuir um orixá feminino. Mas eu já estava ligada em Oxossi, pela identificação mesmo, por minha origem indígena, por meus costumes arredios de mulher arredia, pela curiosidade, desejo de aprender de tudo. Ele me aceita assim, sem querer me impor nada, o Fernando. Gosto demais dele. Mas agora quero ir mais fundo no ritual, sinto que vai assentar mais a minha cabeça. Será que estou errada?????
    Agradeço sua atenção!

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