Àsèsè -O Rito

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*Axêxê é a cerimônia que louva os ancestrais de todos os tempos e nações. Esta cerimônia começa pelo Ìpadé fúnebre, ligeiramente diferenciado dos demais e poderá durar de 1 a sete dias

Através do rito do Axêxê se tem todo um sentido de manifestação do Povo do Santo, rodando, dançando, se integrando com o cosmos, mostrando que temos consciência de que somos elementos dinâmicos, de que o movimento da roda no sentido anti-horário nos liga aos antepassados, proporcionando paz, alegria, saúde e longevidade, dando-nos a certeza que nossa passagem na terra é finita, mas que nossa vida espiritual é infinita – donde os Homens e mulheres são os elementos que dançam em círculo – representa o altar da criação, da vida, já que a terra está em movimento, o universo está em movimento e só se conseguirá estar em sintonia com o universo através do movimento e assim sendo, proporcionando o bem estar da comunidade. Em todos os ritos e principalmente no do Axêxê, os laços de sangue são substituídos pelos de participação na comunidade, de acordo com a antiguidade, as obrigações e a linhagem iniciática. Todos estão unidos por laços de iniciação às divindades cultuadas, aos demais iniciados, às autoridades, aos antepassados e aos ancestrais da comunidade. As oferendas, principalmente a de sacrifícios vegetais, animais e minerais, representam o não uso da violência para resolver questões. Há um princípio de completude do outro, de que a vida se constrói de mãos dadas e de que cada um de nós à medida em que estabelece esta relação, estabelece um elo mais completo com as coisas que estão à volta.


Cada ser é perfeito dentro de sua própria verdade. A solidão é fruto da individualidade inflexível que está dentro de nós em aceitar o próximo como ele é. Muitas vezes ficamos fechado com nossa solidão interior e atribuímos essa culpa ao outro. Solidão é opção! A forma de reverter essa solidão é refletir sobre esse assunto e buscar dentro de si mesmo o que deve ser transformado e começar a agir. Respeitar o outro é fundamental, mesmo que não concordemos com suas idéias.

Babá Lokanfu.Toluaye.

*Babá Fernando D’Osogiyan

A força das mães negras

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Levando-se contra a escravidão, o machismo e o preconceito, a negra brasileira encontrou em sua espiritualidade ancestral os mitos, os símbolos e os exemplos que lhe inspiraram insubordinação e lhe permitiram construir uma nova e altiva identidade

por Sueli Carneiro
A luta das mulheres adquiriu diferentes perfis em nossa história, pois diferentes também eram as inserções sociais e as origens étnicas de suas protagonistas. Em comum, traziam o desejo de liberdade. Para as mulheres brancas, foi a luta contra o domínio patriarcal. Para as negras, a luta contra o jugo colonial, a escravidão e o racismo. Dentre as formas de resistências engendradas pelas mulheres negras brasileiras, destaca-se o exemplo das Yalorixás: uma estirpe de notáveis lideranças espirituais, como Yya Nassô (século XIX), Tia Ciata (1854-1924), Mãe Aninha (1869-1938), Mãe Senhora (1900-1967) e Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), entre outras.Essas mulheres traziam para o presente modelos sacralizados de sua ancestralidade, evidenciados na mitologia preservada e na estrutura religiosa que aqui recriaram. A mitologia africana, apontando insistentemente as estratégias mais diversas de insubordinação, simbólicas ou reais, lhes ofereceu a possibilidade de criar mecanismos de defesa para a sobrevivência e a conservação de seus traços culturais de origem.

O universo mítico, do qual o candomblé é remanescente, se estrutura, como várias outras mitologias, no princípio da sexualidade. É da interação dinâmica entre pares de contrários que tudo é gerado. Assim, a Terra (aiyé) e o Céu (órun) expressam, respectivamente, os princípios arquetípicos Feminino e Masculino. Sua união, que é a garantia da continuidade de tudo, nem sempre se dá de forma harmoniosa. E os conflitos, que são relatados nos mitos, expressam muitas vezes a luta entre os poderes feminino e masculino, em disputa pelo controle do mundo. Essa disputa expressa também o fato de que, em algumas sociedades africanas, mulheres e homens pertenciam a associações demarcadas pelo gênero: Geledé e Ialodé para as mulheres e Oró para os homens.

Segundo a antropóloga Terezinha Bernardo: “Ialodê era uma associação feminina cujo nome significa ‘senhora encarregada dos negócios públicos’. Sua dirigente tivera lugar no conselho supremo dos chefes urbanos e era considerada uma alta funcionária do Estado, responsável pelas questões femininas, representando, especialmente, os interesses das comerciantes. Enquanto a Ialodê se encarregava da troca de bens materiais, a sociedade Gueledé era uma associação mais próxima da troca de bens simbólicos. Sua visibilidade advinha dos rituais de propiciação à fecundidade, à fertilidade — aspectos importantes do poder especificamente feminino”. No Brasil, o culto Geledé desapareceu e Ialodé tornou-se título de mulheres importantes do candomblé.

A organização social do candomblé procurará recriar as estruturas hierárquicas das sociedades africanas que a escravidão destruiu, reorganizar a família negra, perpetuar a memória cultural e garantir a sobrevivência do grupo. Ela permitiu que os “terreiros” se tornassem territórios de organização comunitária, de cura aos destituídos do direito à saúde, de resistência cultural e de negociação com a sociedade abrangente e excludente. Leni Silverstein afirma, a propósito do caso baiano, que “a família-de-santo, com mulheres em seus pontos focais, se torna crucial para a perpetuação de um sistema alternativo de valores, costumes e culturas”1.

Esse passado de resistência marca profundamente o povo-de-santo, em especial suas mulheres. Matriarcas negras que foram reverenciadas no livro A cidade das mulheres (1932), da antropóloga e pesquisadora norte-americana Ruth Landes. Diz ela que a mulher negra “era, no Brasil, uma influência modernizadora e enobrecedora”. E explica: “Economicamente, tanto na África como durante a escravidão no Brasil, contara consigo mesma. E isso se combinava com a sua eminência no candomblé para dar um tom matriarcal à vida familiar entre os pobres. Era um desejável equilíbrio para o rude domínio dos homens em toda a vida latina”2.

Ruth observou que as mulheres do candomblé jamais se prostituíam, mesmo quando pobres, que eram livres no amor, mas não o comercializavam, que eram seres humanos bem desenvolvidos na época em que o feminismo levantava a voz pela primeira vez no Brasil. Suas vidas compõem parcela significativa da história do oprimido deste país e vêm sendo fonte de inspiração para a luta das mulheres negras contemporâneas. A pesquisadora e feminista negra Jurema Werneck compreende suas estratégias como “formas contra-hegemônicas de produção cultural”. E as vê construindo identidades com base em recortes territoriais, lingüísticos ou afetivos.

Pela apropriação e atualização desse patrimônio cultural, as mulheres negras vêm conformando organizações inspiradas na mitologia africana e nas histórias de suas antepassadas. Nesse processo de afirmação identitária, buscam, em instituições femininas da tradição religiosa, nas figuras míticas e nas ancestrais coletivas, os valores e modelos de insubordinação para confrontar a ordem patriarcal e racista.

Tal processo tem sido objeto da investigação científica de pesquisadoras negras contemporâneas, que buscam iluminar as linhas de continuidade entre a tradição e as estratégias de luta atuais. É o caso, por exemplo, do estudo realizado por Angélica Basti, que demonstra que o processo de rememoração implica em dois movimentos simultâneos: a lembrança do passado e a produção de um novo sentido no presente. E faz do mito “uma poderosa ferramenta para a re-significação da memória coletiva”.

Para a pesquisadora, as organizações femininas negras são as novas guardiãs da produção discursiva do grupo. Pois resgatam, registram, arquivam e difundem a história das mulheres negras. E lutam por essa re-significação como instrumento para a transformação do presente.

Do interior dos mitos, emergem os símbolos que inspiraram e inspiram o protagonismo religioso e político de parcelas da população feminina negra brasileira e demarcam as especificidades de sua perspectiva. Assim, Oxun, Iansã, Obá, Ewá, Iemanjá, Nanã conformam arquétipos que alargam e complexificam nossa compreensão do feminino. Cada orixá personifica uma linha de força da natureza, um papel na divisão sexual e social do trabalho, um conjunto de características temperamentais e emocionais. A existência de orixás femininos, masculinos e andróginos expressa uma compreensão profunda da própria sexualidade humana. Os indivíduos concretos serão percebidos do ponto de vista de seus caracteres psíquicos básicos, de sua ação concreta sobre o real e das múltiplas possibilidades de combinações desses componentes.

Esse sistema de representações, particularmente suas mulheres míticas, oferece vivências que a sociedade machista nega. O conservadorismo cristão, que moldou a moral brasileira passada, impôs às mulheres a escolha entre os estereótipos da Virgem Maria e de Maria Madalena. Do ponto de vista patriarcal, esta última só encontra redenção ao abdicar de sua sexualidade. As deusas africanas legitimaram a transgressão dessa dicotomia maniqueísta. As deusas africanas são mães dedicadas e amantes apaixonadas.

A partir do exemplo de Mãe Menininha de Gantois, Ruth Lande nos mostra o tipo de comportamento que essa visão alternativa de mundo ensejou: “Menininha não se casou legalmente […] pelas mesmas razões que as outras mães e sacerdotisas não se casam. Teria perdido muito. De acordo com as leis daquele país católico e latino, a esposa deve submeter-se inteiramente à autoridade do marido. Quão incompatível é isso com as crenças e a organização do candomblé! Quão inconcebível para a dominadora autoridade feminina! E tão poderosa é a tendência matriarcal, em que as mulheres se submetem apenas aos deuses, que os homens […] nada podem fazer além de enfurecer-se, censurar e brigar com as sacerdotisas que amam”3.

Inspiradas nos exemplos dessas precursoras poderosas, as mulheres negras, mestiças e brancas exibem hoje suas saias coloridas e vestem ojás e batas brancas engomadas durante as festas. Trabalham, cantam e dançam noite adentro para seus orixás. Entendem que, apesar de Oxalá ser o grande genitor masculino, ele se curva em adobale (prostração reverencial) diante de Oxum, o poder genitor feminino.

Sabem que, embora Oxalá só possa usar a cor branca, ele põe nos cabelos a pena vermelha, o ekodide, em homenagem ao sangue menstrual, símbolo da fertilidade e da concepção. Então, percebem que a dominação masculina não se explica pela natureza inferior da mulher, mas pelo reconhecimento de suas potencialidades e pelo temor que isso inspira. Enfim, descobrem que a Virgem Maria e Maria Madalena são forças vivas em seu interior e que não precisam abdicar da sexualidade para atingir o reino dos céus.

Sueli Carneiro é doutora em Filosofia da Educação pela USP, escritora e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Este artigo nasceu da pesquisa realizada por ela na década de 1980, sob o título “O poder feminino no culto aos orixás”.

Postado no blog: ocandomble.wordpress.com por Dayane Silva (Oya Kole)

1 Leni Silverstein, “Mãe de Todo Mundo: modos de sobrevivência nas comunidades de candomblé da Bahia”, em Religião e Sociedade, número 4.
2 Ruth Landes, A cidade das mulheres, 2a ed. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2002.
3 Idem.
4 Terezinha Bernardo, “O poder feminino no candomblé”, em Revista de Estudos da Religião, no 2, 2005.

Fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=79

Ofó – O poder da palavra

O Ofó é uma palavra de origem yorubá (ofò), que designa o encantamento através da palavra, que pode ser expressa por versos ou cantigas. Esse é um dom que já nasce conosco, porém é maximizado na iniciação, por uma série de atos realizados em segredo e conforme o seu comprometimento e respeito pelo Orixá, esse poder aumenta.

Use o Ofó para desejar graças ao próximo, para pedir saúde e interceder na hora de um grande perigo, não jogue esse dom divino ao vento por besteiras ou pedrinhas do dia a dia. O axé é algo precioso e deve ser usado com prudência, ou então de tanto invocar o espiritual para resolver besteiras, vai chegar uma hora que estará desacreditado e sua palavra não terá valor nem para os homens, nem para os deuses.

Ofós também são as rezas para Òsányìn com a intenção de despertar o àse contido nas folhas e esse ritual pode ser cantado em vários momentos do culto à òrìsà. Esse ritual tem sequencia, e cada folha tem seu Ofó cantado e relacionado aos òrìsàs correspondentes. Pode-se observar, às vezes, que nem todas as espécies de folhas cantadas se encontram presentes no momento do ritual. Porém, o fato de louvá-las faz com que as suas substitutas exerçam o mesmo papel.O uso mágico das folhas na religião yorubá sempre vem acompanhado de expressões de encantamentos que visam despertar o àse das folhas utilizadas. Palavra falada que se acredita possuidora de força mágica ou capaz de produzir efeitos mágicos, Estes encantamentos são chamados ofó.

Ofó é um aspecto oral de magia Africana, que requer proferindo palavras, uma falha menor em reditar pode renderizar um ófò ineficaz. Ofó são usados em esfera, quase cada de atividade boa, uma para a proteção contra forças do mal ou, a fim de alcançar o sucesso. Baseado em critérios funcionais

OFÓ  –  Forca da palavra:

Oríkì (do yorùbá, orí = cabeça, kì = saudar) são versos, frases ou poemas que são formados para saudar o orixá. Se um oríkìnão conseguiu alcançar o efeito desejado, às vezes é necessário elevar o nível de Àse chamando o Òrìsà por um nome de louvor. Os nomes de Elogios são chamados asé ofó em yorùbá, que significa “palavras de poder”.

Pesquisa: Babá Diego D’Odé e Axé Odára.

O verdadeiro zelador (a) tem que ter Ofó, tem que mastigar ataré e obí, tem que ter o dom da invocação do bem para o bem, nunca para o mal, tem que chamar na alma o bom ebó, tem que ter o hálito divino do saber e aplicar, a intuição à base do seu legado, seus ancestres e suas divindades.

Bàbá Fernando D’Osogiyan

Itan de Òrúnmìlá

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Òrúnmìlá, como todos sabem veio a este mundo em forma de homem (quem sabe?), pelejou pelas terras africanas em missão dada por Olódùmarè.

Em sua vida, teve esposa e filhos e sentia-se velho, não tinha fartura, trabalho, enfim, vivia desgostoso. Olórun ouvindo as suplicas de Òrúnmìlá, deu sinais para ele procurar um Babalawo, que ao consultar Ifá, lhe indicou um ebó.

O ebó consistia em 5 cabaças abertas e sacrifício de um galo.

Cada dia uma cabaça e um galo, completando 5 dias.

Ao depositar a oferenda nas encruzilhadas, uma entidade se apossava e se alimentava da oferenda. A cada dia fortificava seu corpo espiritual até que no quinto dia, tornou-se um ser humano. As 5 cabaças fecharam e ele as carregava com ele, pois era um enviado de Olórun para cumprir a missão de oferecer-lhe as 5 cabaças citadas, Paciência, Longevidade, Fertilidade, Riqueza e Sabedoria.

No quinto dia, este homem seguiu Òrúnmìlá até sua casa. Batendo à porta, ofereceu-lhe as cabaças pedindo para que escolhesse apenas uma.

Òrúnmìlá em dúvida chamou a esposa que lhe aconselhara escolher a Fertilidade, assim poderia ter vários filhos, além dos 3 que já tinha. Não contente, chamou os filhos, que aconselharam escolher a Longevidade, assim poderia conhecer os filhos dos seus netos. Não feliz, chamou os irmãos, que lhe deram o conselho de escolher a Riqueza, assim ficaria rico e não passaria mais necessidades. Òrúnmìlá mesmo escolheria a cabaça da Sabedoria, mas mesmo assim ficou na dúvida e chamou seu melhor amigo, Èsù.

Èsù quis saber o que sua família havia escolhido e disse que a única cabaça que ninguém se interessou seria a mais importante. Então Òrúnmìlá obedeceu aos conselhos de seu amigo Èsù e disse que quem escolhesse a Cabaça da Paciência, com o tempo teria as demais cabaças juntas.

Òrúnmìlá então ficou com a Paciência.

O homem cumpriu sua tarefa e voltou para rua indo em direção ao Céu. A cada passo seu corpo físico desfazia e no caminho ao Céu uma cabaça acordou.

A primeira que acordou foi a Sabedoria.

Onde está a Paciência?

Perguntou.

Ficou na casa de Òrúnmìlá, disse ele.

Sem ela eu não volto pro Òrun.

De repente a Cabaça da Sabedoria sumiu das suas mãos.

Mais adiante, a Fertilidade acordou fazendo a mesma pergunta.

Até que todas iam acordando e sumindo, indo em direção à casa de Òrúnmìlá.

Quando chegou à porta do Òrun, a entidade estava chorando de medo, pois tinha que trazer as Cabaças de volta.

Ao entrar no Palácio de Olódùmarè, todos o esperavam, até Olódùmarè pedir para que entrasse e disse:

“Você cumpriu sua missão?”.

Sim senhor, mas todas as Cabaças sumiram das minhas mãos e voltaram para a Casa de Òrúnmìlá.

Disse Olódùmarè acalmando-o:

Sim, quem escolher a Cabaça da Paciência, terá juntado dela toda a riqueza do mundo, vida longa, fertilidade e sabedoria. Não se preocupe que sua missão foi cumprida. Agora Òrúnmìlá continuará vigiando e pondo ordem na Terra.

Esta é uma itan da qual podemos passar aos desesperados, pois com fé, com certeza Olódùmarè olhará por nós, dando-nos tudo que precisamos se tivermos conosco não a Cabaça em si, mas a paciência que morava dentro dela.

Só para enfatizar – As amigas inseparáveis.

A Paciência é a única sobrevivente e companheira da Esperança.

É necessário quase que casamento entre as duas.

Até que a morte as separe.

Lembre-se que a Dona Esperança tem vida longa.

Paciência não.

Como nós mesmos dizemos:

“A Esperança é a última que morre”.

A Paciência não.

Espero que vocês tenham a Dona Paciência como amiga e aliada, pois sem ela, muitas coisas ficarão perdidas na vida e se a dona Paciência morrer antes corremos o risco de a Esperança ir junto.

Evite que isso aconteça com você.

Pesquisa: Odé Ợlaigbo

Sacrifícios e sacrificados.

São a meu ver meros oportunistas que se arvoram a defender nossa religião sem ao menos nos ter consultado, por outro lado outros não menos autorizados promovem debates promocionais futuros em locais de notoriedade com finalidades declaradamente eleitoreiras, arvoram-se em defender algo que não compreendem e muitas vezes não praticam, nem ao menos são iniciados, porem são apoiados por Baba/Iya que por sua vês buscam a notoriedade religiosa fora da religião, em movimentos ditos de preservação ou defesa de nossa religião, quando na verdade preservam ou defendem apenas eles mesmos.

“Os nossos “INCALTOS” ou seriam “INCULTOS” defensores nem ao menos conseguem discutir de forma ‘INTELIGIVEL” o que é sacrifico e porque são feitos, muito menos a historicidade do tema, quem pratica e porque pratica atualmente aja visto que não é só as religiões de matriz africana que o praticam, muitas outras o praticam nos dias de hoje, alias de forma aberta e fartamente divulgadas pelas mídias.

Mas antes vamos ver o que temos sobre o tema:

Sua origem etimológica é sacr (de origem judaica) e a palavra latina ofício), da junção das duas palavras temos

1- Sacro oficio = aquele que pratica uma determinada religião(sacerdote), um profissional a serviço de “Deus”

2- Sacrifício = Ato de através de um animal ou produto de sua renda oferecer a Deus ou ao templo (dizimo)

1-A teologia do sacrifício permanece uma questão em aberto, não apenas para as religiões que ainda realizam rituais de sacrifício, mas também para as que não mais os praticam, ainda que suas escrituras, tradições e histórias façam menção a sacrifício de animais. As religiões apresentam diversas razões pelas quais os sacrifícios podem ser realizados.

2-Sacrifício é a prática de oferecer como alimento a vida de animais, humanos, colheitas e plantações, aos deuses, como acto de propiciação ou culto. O termo é usado também metaforicamente para descrever actos de altruísmo, abnegação e renúncia em favor de outrem.

Os deuses necessitam do sacrifício para seu sustento e para a manutenção de seu poder, que diminuiria sem o sacrifício.

Os bens sacrificiais são utilizados para realizar uma troca com os deuses, que prometeram favores aos homens em retribuição pelos sacrifícios.

A vida e o sangue das vítimas dos sacrifícios contêm mana ou asé ou outro poder sobrenatural, cuja oferenda agrada os deuses

A vítima do sacrifício é oferecida como bode expiatório, um alvo para a ira dos deuses, que de outra maneira recairia sobre todos os homens.

O sacrifício é, na verdade, parte de uma cerimonia. Por vezes é consumido pelos fiéis. Habitualmente incorpora uma forma de redistribuição em que os pobres obtêm parcela maior do que sua contribuição.

Sacrifício na Grécia Antiga

Na religião da Grécia Antiga o templo não servia de lugar ao culto onde os fiéis se reuniam para celebrar os ritos, o templo é a casa de Deus a que se consagrou. O lugar de reunião dos devotos era o altar exterior, o bomos, bloco de cantaria quadrangular onde se desenrolava o rito central da religião grega, o sacrifício

O sacrifício era de origem alimentar, envolvendo um animal doméstico como os que hoje nos servem de alimento, que seguia numa procissão ritual até ao bomos. A cabeça era cortada com uma espada curta, a machaira, que até ali estava dissimulada debaixo de cereal no cesto ritual, o kanun. O sangue que jorrava sobre o altar era recolhido num recipiente, tal como ainda se faz num açougue ou matadouro, e abria-se o animal para se examinar as entranhas, e em especial o fígado, de modo a concluir se o sacrifício era aprovado pelos deuses. No caso afirmativo, a vítima é esquartejada e dividida nas suas diversas partes, tarefa que actualmente se faz num talho. As gorduras e os ossos maiores, completamente descarnados, eram deixados no altar para serem cremados, processo pelo qual se enviava o produto sacrificial aos deuses. Alguns dos pedaços internos, os splanchna, eram grelhados em espetos neste fogo, pelos executantes do rito, e posteriormente distribuídos pelos mesmos, garantindo assim o contacto entre os deuses e os executantes do rito. O resto da carne era cozida e dividida em partes iguais para ser consumida no local, como consumação geral da festa sacrificial por todos os participantes. As peles e a língua eram entregues ao sacerdote, ou cidadão imaculado, que procedera ao sacrifício.

O que no sacrifício grego é, para os deuses, uma oferenda, para os homens é uma refeição de festa que desde a imolação ao repasto estava envolvida numa atmosfera de fausto e alegria. Toda a encenação ritual era conduzida de modo a velar quaisquer traços de violência e assassinato, para fazer ressaltar a solenidade pacífica de uma festa feliz. O animal do sacrifício não chegava a perceber qual era o seu destino e ninguém se horrorizava com o prospecto da sua morte. Ainda hoje, nos açougues industrializados, procura fazer-se a matança sem que o animal perceba, para que não liberte as toxinas produzidas pela ansiedade anterior ao golpe que o leva à morte, que infestam e muitas vezes inutilizam a sua carne. Na sociedade grega antiga não se comia outra carne que não a dos sacrifícios.

Sacrifício no Judaísmo

No Judaísmo, o sacrifício é conhecido como Korban, palavra oriunda do hebreu karov, que significa “vir para perto de Deus”.

Judeus medievais como MaimônidesMaimônides, era natural que os israelitas acreditassem que o sacrifício fosse necessário na relação entre o homem e Deus. Maimônides concluiu que a decisão de Deus de permitir sacrifícios era uma concessão às limitações psicológicas do homem. Era esperado que os israelitas passassem de sacrifícios à adoração pagã em pouco tempo.

Na Bíblia hebraica, Deus ordena que os israelitas ofereçam sacrifícios de animais no santuário, ou tabernáculo. Quando os israelitas já haviam chegado à terra de Canaã, ordenou-se que todos os sacrifícios terminassem, excepto os que aconteciam no Templo de Jerusalém. Na Bíblia, Deus pede sacrifícios como um sinal de sua aliança com povo de Israel. O sacrifício também era feito para que Deus perdoasse os pecados, uma vez que o animal estaria sendo punido no lugar do pecador.

Sacrifício no Islão

O sacrifício de um animal, em língua árabe, se diz Qurban (قُرْبَان). No entanto, a palavra possui em certas regiões uma conotação pagã. Na Índia, porém, a palavra qurbani é utilizada para o rito islâmico de sacrifícios de animais.

No contexto islâmico, o sacrifícios de um animal é comumente referido como Udhiyah (أُضْحِيَّة), significando sacrifício. Udhiyah, como um ritual, é oferecido apenas em Eid ul-Adha. Os muçulmanos dizem que isso não tem nada a ver com sangue e ferimentos (Corão 22:37: “Não é a sua carne tampouco seu sangue que alcança Alá, mas sim a sua fé que o alcança…”). O sacrifício é feito para ajudar os pobres, e para recordar o profeta Abraão que não se opunha a sacrificar o filho (de acordo com os muçulmanos, seria Ismael) a pedido de Deus. O animal a ser sacrificado pode ser um cordeiro, uma ovelha, uma cabra, um camelo ou uma vaca. Deve ser saudável e estar consciente.

O rito islâmico de sacrifício é chamado Dhabĥ . Em nome de Alá, a garganta e as veias jugulares do animal são cortadas rapidamente com faca bem afiada. A espinha dorsal e o pescoço não devem ser quebrados até que o animal pare de se mover, evitando dor ao animal. São explicitamente proibidas outras formas de sacrifício de animais como morte a pauladas, eletrocussão e perfuração do crânio com lança.

A razão por que se invoca o nome do Criador no momento do sacrifício é por alguns considerada equivalente à aceitação do direito do Criador sobre todas as criaturas. Trata-se de um tipo de permissão garantida ao autor do sacrifício, resulta em sentimento de gratidão por poder comer a carne do animal sacrificado. A carne é normalmente distribuída entre os parentes necessitados. No entanto, dependendo do propósito ou da ocasião, pode ser consumida pela pessoa que sacrificou o animal. Todos os animais devem ser sacrificados dentro das formas acima, não se importando se a carne será utilizada em comemoração religiosa ou consumo pessoal. Será então considerada Halal, e própria para consumo.

Sacrifício no Candomblé

Sacrifício – vem da palavra sacrificar que no sentido religioso é oferecer em holocausto por meio de cerimonias próprias. No candomblé, esta parte do ritual denominada de sacrifício não é propriamente secreta; porém não se realiza senão diante de um reduzido número de pessoas, todos fiéis da religião. Deve-se temer que a vista do sangue revigore, entre os não iniciados, os estereótipos sobre a barbárie ou o carácter supersticioso da religião africana.

Uma pessoa especializada no sacrifício, o Axogun, que tem tal função na hierarquia sacerdotal, é quem o realiza .O Axogun não pode deixar o animal sentir dor ou sofrer porque a oferenda não seria aceita pelo Orixá. O objeto do sacrifício, que é sempre um animal, muda conforme o Orixá ao qual é oferecido; trata-se, conforme a terminologia tradicional, ora de um animal de duas patas, ora de um animal de quatro patas, galinha, pombo, bode, carneiro. Na realidade não se trata de um único sacrifício: sempre que se fizer um sacrifício a qualquer Orixá, deve ser antes feito um para Exú, o primeiro a ser servido.

Esse sacrifício não é só uma oferenda aos Orixás. Todas as partes do animal vão servir de alimento, nada é jogado fora. O couro do animal é usado para encourar os atabaques, o animal inteiro é limpo e cortado em partes, algumas partes são preparadas para os Orixás e o restante é destinado aos demais. Tudo é aproveitado: até a porção oferecida aos Orixás é posteriormente distribuída entre os filhos da casa como o ASÉ Orixá. É usada para confraternização: unem-se os filhos a comer com o pai ou mãe, havendo repartição do Axé gerado pelo Orixá. (Acredita-se que após algum tempo que a comida esteja no Peji ela fica impregnada pelo Axé do Orixá). O sacrifício no candomblé é a renovação do Axé, feito uma vez por ano para cada Orixá da casa ou em circunstâncias especiais.

Voltando ao tema, como podemos ver acima em especial as linhas por mim sublinhadas o sacrifico ainda é praticado pela maioria das religiões ditas modernas de alguma forma, senão vejamos:

Os Judeus e os muçulmanos ortodoxos as praticam em matadouros especiais, os animais são mortos de forma ritual por um sacerdote sacrificador autorizado, como podemos ler abaixo:

“Cashrut ou kashrut (em hebraico: כַּשְרוּת), também conhecido como kashruth ou kashrus na tradição asquenazita, é o termo que se refere às leis alimentares do judaísmo. A comida, de acordo com a halachá (lei judaica) é chamada de kosher, do termo hebraico כשר (kashér), que significa “próprio” (neste caso, próprio para consumo pelos judeus, de acordo com a lei judaica). Os judeus que seguem o kashrut não podem consumir comida não-kosher, porém existem exceções quanto à utilização não-alimentícia de produtos não-kosher, como, por exemplo, numa injeção de insulina de origem porcina ministrada a um diabético.

A comida que não estiver de acordo com a lei judaica é chamada de treif ou treyf (em iídiche: טרייף, do hebraico |טְרֵפָה, transl. trēfáh). Num sentido mais técnico, treif significa “rasgado”, “dilacerado” e se refere à carne que veio de qualquer animal que contenha algum defeito que o torne impróprio para o abatimento. Um animal que tenha morrido por qualquer meio que não o sacrifício ritual é chamado de neveila, que significa literalmente “coisa suja”

Muitas das leis básicas do cashrut derivaram de dois livros da Torá, o Levítico e o Deuteronômio, com a adição dos detalhes estabelecidos pela lei oral (a Mishná e o Talmude) e codificadas pelo Shulkhan Arukh e pelas autoridades rabínicas posteriores. A Torá não afirma explicitamente o motivo da maioria das leis cashrut, e diversas razões foram apresentadas para estas leis, desde filosóficas e ritualísticas, até práticas e higiênicas.

Por extensão, a palavra kosher passou a significar “legítimo”, “aceitável”, “genuíno” ou “autêntico”, num sentido mais amplo.[1]

O islamismo também tem um sistema relacionado, embora diferente, chamado de halal, e os dois possuem um sistema comparável de sacrifício ritual (shechita no judaísmo e dhabihah no islã).

Conforme podemos observar os sacrifícios são realizados no mundo todo onde judeus e muçulmanos vivam, da mesma forma que os praticantes das religiões de matriz africana, no Brasil, existem matadouros religiosos que servem essas religiões em São Paulo e nos demais estados.

Portanto qual seria a diferença entre os sacrifícios?

Nós os praticantes de religiões de matriz africana somos diferentes?

Judeus e Muçulmanos podem sacrificar e nós não?

Segundo as leis brasileiras somos iguais perante todos ou será que não ?

Seria a religião praticada pelos Judeus e Muçulmanos considerada superior?

A proibição do sacrifico de animais no estado de São Paulo será estendido a todas as religiões ou apenas aos de matriz africana?

A igreja católica apostólica romana deixaria de comer o corpo de Cristo e beber seu sangue e distribuí-lo aos cristãos? Isso a meu ver á antropofagia ou não ?

Ao beber o vinho(sangue de cristo) durante a missa, deixaria de faze-lo na frente de crianças? Isso a meu ver é apologia ao alcoolismo, ou não ?

Vamos proibir as crianças de irem as igrejas aja visto que são o prato principal dos padres católicos no mundo todo?

Vamos proibir os incautos de irem aos templos neo-pentecostais e sacrificarem seu dinheiro ?

Senhores Deputados Estaduais e Federais, Senhores da Sociedade de Proteção aos animais, Senhores de bom senso desta terra brasilis, por favor temos tantas coisas mais importantes a fazer, vamos gastar nosso tempo com a educação, a saúde, a corrupção que assola nosso país. Deixem nossa religião em paz.

Texto: Oga Gilberto de Esu

Vice presidente do Orisa Wolrd
International Congress of Orisa Tradition an Culture

Fontes de pesquisa:

O sagrado e o Profano-Mircea Eliades